Nem todo stress no trabalho é, por si só, um problema.
- Daniele Coutinho

- 2 de mar.
- 2 min de leitura
O problema começa quando não há espaço sequer para reconhecer que algo está difícil.
Nas empresas, discursos sobre resiliência e pensamento positivo ganharam força nos últimos anos. Em muitos contextos, qualquer sinal de desconforto precisa ser rapidamente ressignificado, suavizado ou neutralizado.
Essa lógica costuma partir de uma boa intenção: manter o clima, preservar a motivação, evitar a “negatividade”. No entanto, quando não há segurança psicológica para nomear dificuldades reais, o efeito é o oposto do desejado.
Quando o stress não pode ser reconhecido e nomeado, ele não desaparece.
Ele se acumula.
Esse fenômeno é frequentemente associado ao que chamamos de positividade tóxica: quando o discurso positivo invalida experiências legítimas de sobrecarga, silencia conversas difíceis e acaba legitimando estruturas de trabalho insustentáveis.
Na semana passada, ao participar do webinar Mental Health, Burnout & Sustainable Wellbeing, com Tal Ben-Shahar (referência mundial em felicidade e liderança), uma ideia ajudou a organizar melhor esse debate:
o problema não é o stress em si, mas o stress crônico — sem recuperação, sem escolha e sem sentido.
A ciência do bem-estar não propõe eliminar desafios ou pressão do trabalho. Pelo contrário. Ela reconhece que desafios pontuais, quando acompanhados de propósito, autonomia e possibilidade de pausa, podem inclusive favorecer aprendizado e crescimento.
O que adoece é a permanência da urgência.
A ausência de recuperação.
E decisões organizacionais que exigem tudo, o tempo todo.
Nesse sentido, falar de bem-estar de forma responsável exige ir além do indivíduo. Exige olhar para como o trabalho é desenhado, liderado e sustentado ao longo do tempo.
Talvez o debate mais importante não seja entre stress ou felicidade, mas entre trabalhos que consomem pessoas e trabalhos que sustentam a vida e o desempenho no longo prazo.
Esse é um dos temas centrais das reflexões que seguimos desenvolvendo no Instituto Betelli, ao pensar bem-estar não como um benefício adicional, mas como parte estrutural do trabalho.
Porque bem-estar não é bônus.
É base.




Comentários